Fase de Latência na Psicanálise | Blog ESFLUP

O que é a fase de latência na Psicanálise? Entenda por que esse período silencioso da infância é decisivo para a formação do sujeito — e o que acontece quando ele falha.

Existe algo interessante no campo psicanalítico que deve ser levado em consideração: quanto mais espinhoso é um conceito, como o Complexo de Édipo, mais ele é discutido, trabalhado e até distorcido. No entanto, quanto mais silencioso ele é, mais tende a ser esquecido ou mesmo desvalorizado.

Nesse sentido, o chamado período de latência é exatamente isso: um silêncio. Um silêncio, por vezes, ensurdecedor. Como diria o psicanalista Pedro Sá: “O silêncio não é a negação da linguagem. O calar compõe o dizer”. Essa fase tem muito a dizer. Ela não é um vazio; é um silêncio que trabalha.



Mas, o que é, afinal, a fase de latência?

Se observarmos Sigmund Freud, o período de latência surge como uma fase que sucede as vicissitudes e percalços da sexualidade infantil (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 1905), especialmente o momento fálico e o declínio do Complexo de Édipo.

Freud descreve esse momento como uma espécie de pausa, uma calmaria que antecede a puberdade, na qual a energia pulsional (libido) não desaparece, mas sofre um redirecionamento.

“As forças pulsionais são desviadas para outros fins, especialmente para atividades culturais e sociais.”

Ou seja, não ocorre uma ausência de desejo, mas sim uma espécie de deslocamento pulsional, por assim dizer.



O erro comum: pensar a latência como pausa

Aqui, talvez, haja um ponto cego arrastado pela conceituação freudiana e assumido, por vezes, como um raciocínio comum na literatura psicanalítica.

A latência costuma ser tratada como uma fase de “calmaria”, “neutralidade” ou até de um “apagamento da sexualidade”. Esse raciocínio é conceitualmente superficial.

Podemos pensar em algo mais complexo, como um operador defensivo, como o recalque, um pouco mais organizado, uma maior capacidade de direcionar os recursos psíquicos para mecanismos de defesa mais nobres, com valor social aceito, como a sublimação. Cabe observar também uma intensificação na formação de ideais identificatórios mais consistentes.

Portanto, a criança não está menos sexualizada ou menos implicada; ela está cada vez mais estruturada.



Latência como operador de civilização

Para evidenciar a importância dessa fase, é possível destacar que, nesse momento, consolidam-se funções muito importantes, e até decisivas, para a vida da criança: ocorre a internalização da lei (numa leitura mais freudiana, o supereu passa a operar de maneira cada vez mais estável); há uma entrada essencial no laço social; ocorre um deslocamento do investimento para o saber (escola, linguagem, regras) e, ainda, a construção de ideais de admiração, de modelos e de pertencimento a grupos, etc.

Freud já apontava para essa ideia ao vincular a latência à formação dos chamados “sentimentos sociais”.

No entanto, é importante frisar que quem radicaliza essa ideia é sua filha, Anna Freud, ao afirmar que esse momento é privilegiado por defesas mais sofisticadas e por uma maior capacidade de adaptação e organização do ego.

Nesse momento, acontece algo de estrutural: o sujeito começa a sustentar algo fundamental, o adiamento do gozo.



A ponte que precisa ser mais explorada

Existe um ponto forte para o qual é preciso direcionarmos o olhar e que ainda é pouco desenvolvido: a latência como articulação entre a fase fálica e a fase genital. Essa ideia requer uma revisitação mais detalhada.

A fase fálica coloca o sujeito diante da castração e do universo econômico do desejo do Outro; já a fase genital exige uma posição mais integrada diante do desejo, do objeto de sexualização (que deixa de ser os pais) e do próprio corpo.

A latência é o momento que permite que essa passagem não seja catastrófica. É a ponte que suaviza a travessia de uma fase para a outra. Sem latência, não há elaboração suficiente para sustentar a genitalidade.

Enfim, essa fase não é um simples hiato, uma pausa pura e simples; é trabalho psíquico operando como mediação.



O papel da sublimação

Aqui entra um dos conceitos talvez mais negligenciados na clínica contemporânea e que surge como evidência necessária a essa fase.

Durante a latência, há um aumento considerável da sublimação, conceito central em Sigmund Freud e que pode ser explorado na contemporaneidade, principalmente no contexto tecnológico e dinâmico da vida virtual que atravessa toda uma geração.

A energia pulsional é deslocada para a aprendizagem, para os esportes, para a produção simbólica e para os vínculos sociais em suas várias possibilidades atuais.

Isso não é um desvio de investimento; é o que permite à cultura sobreviver.

Sem uma latência bem operada, sem essa ponte estruturada, o sujeito tende a apresentar dificuldades de simbolização, maior impulsividade, baixa tolerância à frustração. Podemos ainda refletir sobre as diversas possibilidades dessa falha em Donald Winnicott, bem como sobre fortes tendências a relações com pouca ou nenhuma mediação da lei.



E por que se fala pouco em latência?

Qual seria o motivo pelo qual teóricos e clínicos pouco mencionam esse período?

Uma hipótese: a latência é menos estudada porque não produz sintomas “espetaculares”. Ainda há espaço para brincar e fantasiar, o que reduz os riscos de grandes formações de compromisso entre opostos.

Não é uma fase teoricamente tão erotizada e não mobiliza tanto os estudos quanto a fase fálica, que gira em torno do Édipo e da castração.

Ela exige um olhar clínico mais sutil: observação de processos, de microdefesas, de pequenas resistências, e menos de picos de explosão ou de atuação transferencial.

Isso não a torna menos importante; ao contrário, a torna mais difícil de apreender.



Uma leitura contemporânea necessária

Autores como Jean Laplanche e Donald Winnicott ajudam a reler a latência para além de uma concepção meramente biológica ou cronológica.

Laplanche evidencia o papel do enigma proveniente da mensagem do Outro, que a criança recebe como algo que produz um furo de sentido. Segundo ele, isso se intensifica na fase fálica, tornando necessária uma tradução psíquica na latência, período em que essas mensagens são reorganizadas com recursos simbólicos mais elaborados.

Winnicott, por sua vez, aponta para o espaço potencial, no qual a criança oscila entre criar e encontrar o objeto, um “entre” a realidade psíquica (fantasia) e a realidade objetiva. Nesse sentido, o brincar continua sendo uma forma fundamental de existência. Há, inclusive, uma expansão desse espaço: a criança desloca-se do jogo individual para o social.

Esses autores reforçam que a latência não é uma fase fechada em si mesma, mas um processo contínuo de elaboração simbólica.



O que acontece quando a latência falha?

Aqui vale avançar um pouco mais: o que ocorre quando a latência falha?

Como o próprio nome sugere, trata-se de algo latente, prestes a emergir. Algumas falhas ou antecipações psíquicas podem levar a uma erotização precoce sem mediação simbólica, dificuldades de inserção social, empobrecimento do brincar, fragilidade do supereu.

Diversos quadros de sofrimento psíquico contemporâneo podem ser relidos a partir de uma lente mais atenta aos impasses dessa travessia.



Conclusão

A latência não é um tempo morto da infância.

É o laboratório silencioso onde o sujeito aprende a transformar desejo em cultura, impulso em linguagem e excitação em laço social.

Ignorá-la talvez seja um dos erros mais caros da teoria e da clínica contemporâneas.

Alexandre Ribeiro — Psicanalista e professor de filosofia